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Imprensa

 

claudiohumberto.com.br, 4 de dezembro de 2009

Fora do pedestal

Por Jorge Oliveira

Alguns críticos de cinema paulistanos não gostaram nem um pouco da expressão “O operário que derrubou a ditadura no Brasil” no cartaz do filme Perdão, Mister Fiel, que conta a história de Manoel Fiel Filho, morto sob tortura, em 1976, nos porões da ditadura de São Paulo. Puro preconceito. Eles querem tirar de Fiel, um nordestino de Alagoas, a importância da sua fundamental contribuição no desmantelo do regime militar, mesmo depois da sua morte há 33 anos.

 Essa manifestação de discriminação ao nordestino pela elite paulista não é fruto do acaso. A cidade, que abriga o maior número deles, alimenta e mantém acesa a chama do preconceito dentro das próprias redações dos jornais, especialmente nas editorias de política e de cultura. Como jornalista nordestino, trabalhei em alguns deles e testemunhei isso de perto. Por isso, não me espanta o procedimento do crítico de cinema Luiz Zanin, do Estado de S. Paulo, ao tentar minimizar a importância do operário Manoel Fiel Filho no processo do esfacelamento do regime militar, quando Geisel foi obrigado a demitir a cúpula do Segundo Exército, acusando-a da sua morte.

Vencedor do prêmio Câmara Legislativa como melhor filme no 42 Festival de Cinema de Brasília, Perdão, Mister Fiel vem sofrendo uma campanha sistemática do jornalista do Estadão desde que estreou no festival e foi aplaudido de pé pelo público. Ele não se conforma que foi por causa desse humilde trabalhador, caboclo, pau-de-arara, cabeça chata, comunista, que o Brasil deixou de ser ditadura para caminhar rapidamente no rumo da democracia.

O preconceito contra os nordestinos dentro das redações dos jornais de São Paulo já foi alvo de intermináveis estudos sociológicos no país. Ele tem raízes no racismo, especialmente porque os nordestinos são mulatos, negros e descendentes de índios, o que contrasta com a elite europeizada paulistana. O racismo antinordestino em São Paulo é comparado à discriminação que ocorre em Buenos Aires (portenhos em relação a provincianos) e na cidade do México (chilangos contra nacos).

Os ataques ingênuos ao filme, que recebeu cinco estrelas de um jurado-leitor do Correio Braziliense, não se detêm apenas à defesa do purismo cinematográfico, mas no preconceito conservador arraigado na formação cultural das famílias quatrocentonas paulistas. É isso que certamente leva jornalistas de São Paulo a ignorar a história do Brasil, especialmente quando essa história tem como protagonista um simples metalúrgico alagoano, até então escondido no baú da conveniência dos acordos políticos, e hoje imortalizado em filme.  

Não se pode evidentemente generalizar a discriminação aos nordestinos a toda imprensa paulista. Mas é sintomático que há muito tempo os jornais apontem como reflexo da migração os grandes contrastes sociais em São Paulo. Não admitem que isso seja resultante da má distribuição de renda ou da falta de oportunidades, características tão comuns ao Brasil. Preferem culpar os “paraíbas” e os “baianos” por essas anomalias sociais, como se todos os nordestinos trabalhadores e honestos fossem culpados por essas distorções.
 É respaldado nesse preconceito que jornalistas como Luiz Zanin tentam subestimar a importância de Manoel Fiel Filho na luta pela redemocratização do Brasil.

Para a elite paulista, formada por alguns jornalistas conservadores, que apoiou a “Marcha pela família com Deus, pela Propriedade”, um movimento de direita, que foi às ruas pedir a intervenção militar no país, os migrantes nordestinos são culturalmente atrasados e dotados de baixa capacidade intelectual. Portanto, Manoel Fiel Filho não pode ser transformado num herói da resistência. O pedestal deles não tem espaço para um simples operário, homem do povo.

Jorge Oliveira, jornalista, cineasta, é diretor do Perdão, Mister Fiel.

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