JCV ProduçõesPerdão Mr. Fiel
Imprensa

 

Correio Braziliense, 20 de novembro de 2009

Morte, terror e ditadura

Ricardo Daehn

Um interessante paralelo vem à tona quando o estreante Jorge Oliveira, diretor de Perdão, mister Fiel, analisa o cenário propiciado pelo 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Se, por um lado, o evento celebra a figura de um político bem-sucedido como Lula — que veio da base operária na qual o comunista Manoel Fiel Filho militava —, por outro, há uma sensação de vazio, com a ausência de Fiel Filho, morto no período da ditadura. “Um é o operário que sobreviveu a todas as adversidades políticas e se tornou o presidente da República, enquanto, o outro, também metalúrgico, que não sobreviveu. Em função da lamentável morte dele, o Brasil respirou a liberdade”, observa o cineasta e repórter que, aos 61 anos, já foi diretor da Fenaj e do Sindicato dos Jornalistas.

Em meio a tanto realismo e levantamento de dados, é curioso que o diretor alagoano tenha adotado duas vias para a produção: além do didatismo — “que é importante senão você não pode confundir mais a cabeça de pessoas que já foram confundidas” —, ele aplicou um lastro de 25 minutos de dramatização no documentário. “Pela ordem, veio a pesquisa, roteiro e depois as encenações. Tivemos 55 horas de depoimentos, com participação de 31 pessoas. Aproveitamos todas as entrevistas, pelo trabalho pontual de planejamento. No final, tive quase quatro horas de material para retrabalhar”, explica. Além da ópera na trilha, com direito a três sopranos, o filme traz encenações, em preto e branco (mas com detalhes em cor, como o azul no macacão do operário), numa opção estética do ex- fotojornalista.

Pretendendo uma aderência na memória dos espectadores, os cenários dos depoimentos são pretos, “numa homenagem às famílias enlutadas dos presos, desaparecidos e mortos políticos”. A porção “herói anônimo” atrelada a Manoel Fiel Filho se justifica, se comparada à mobilização levantada no assassinato do jornalista Vladimir Herzog, três meses antes, nas mesmas dependências do DOI-Codi. “Quanto ao Fiel, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo se omitiu, inclusive. Houve uma missa simples e ele ficou apagado na história”, comenta Jorge Oliveira. No documentário, pela primeira vez, há registro com Antônio Flores (de codinome Fiori, e que morreu em novembro de 2008), o colega de fábrica de Fiel, que era o verdadeiro alvo da polícia, em 1976. “Em suma, ele diz: ‘O Fiel não morreu no meu lugar, ele era um militante do Partido Comunista’”, relembra Oliveira.

Simpatizante comunista, sem filiação partidária, o cineasta levantou cerca de 70% da produção (orçada em R$ 800 mil), num esforço pessoal. “Fui preso e torturado, o que também me leva para os tons biográficos no filme. Em três circunstâncias, por investir em matérias mais ousadas, fui enquadrado na Lei de Segurança Nacional, no período dos anos 1970”, comenta Jorge Oliveira. Perdão, mister Fiel demarca uma vitória, diante da murcha cena do jornalismo televisivo, numa teoria pessoal do diretor. “Os documentários estão em alta, até por ocuparem um espaço daquilo que não é mais dito na tevê. A televisão se transformou em veículo culinário. Se a gente combateu a censura do arbítrio, de forma unida, agora, sem a censura oficial, chegou a econômica”, avalia.

Lula como trunfo

Outra barreira no filme Perdão, mister Fiel — “a da monotonia dos documentários que se restringem a depoimentos” — também foi ultrapassada, com as cenas recriadas por atores como Similião Aurélio, Roberto de Martin, Gê Martu e Alice Stefânia, num recurso similar ao adotado no seu média-metragem A esfinge — Floriano Peixoto. Outros trunfos estão nos depoimentos do presidente Lula (assediado por longos sete meses pela produção), e no ineditismo da participação do ex-militar Marival Chaves. “Pela primeira vez, um ex-sargento — como agente, lotado no DOI-Codi — conta o funcionamento do serviço de inteligência e de como as pessoas ‘eram desaparecidas’”, revela o diretor. A voz do ex-presidente Ernesto Geisel — em gravação cedida pela biógrafa Maria Celina D’Araujo —, que fala sobre Fiel, também é relíquia. “Com o caso, Geisel dispensou o comandante do 2º Exército, Ednardo D’Ávila Mello, no dia seguinte à morte e, meses depois, exonerou Sylvio Frota do Ministério do Exército. Mas, o governo Geisel também é questionado no filme, como o que mais matou comunistas no Brasil”, conta.

Com visão aguçada por pesquisa histórica, Jorge Oliveira — há duas décadas radicado em Brasília — não deixou de lado traços políticos que circundaram a morte de Manoel Fiel Filho. Entram na fita, portanto, aspectos do processo de anistia, posicionamentos divergentes sobre instrumentos da ditadura (entre os quais, os de Lula e do irmão dele, Frei Chico) e a atuação de agentes da CIA, na difusão de métodos de tortura pela América do Sul. “A intervenção dos Estados Unidos acarretou em prejuízo moral, social e até físico para o Brasil. Levanto bandeiras, para que conduzam a discussões”, diz.

Com ou sem prêmio Candango, Jorge Oliveira já alcançou a satisfação: “Depois que comecei a fazer o filme, para minha surpresa agradável, Manoel Fiel Filho passou a ser um personagem da história do Brasil. Com o noticiário feito em torno do filme, o Ministério Público de São Paulo reabriu o processo da morte dele. Todas as pessoas envolvidas com o caso, direta ou indiretamente, serão chamadas a depor. Só isso já é gratificante e paga o fato de ter resgatado a história da morte dele.”

« Voltar

 

Ancine
Patrocínio
Eletrobrás
Petrobrás Brasil - um país de todos
Transpetro
Apoio
Governo de Alagoas Engevix
Chesf Ceal
PERDÃO MR. FIEL: O FILME | IMPRENSA | CONTATO | EQUIPE | FOTOS | VÍDEOS