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Imprensa

 

O Estado de São Paulo, 12 de junho de 2008

Docudrama recupera heroísmo do operário Manoel Fiel Filho

Luiz Carlos Merten

Domingo, por volta das 16 horas. Céu parcialmente encoberto na zona leste de São Paulo. No cemitério da Quarta Parada, no Tatuapé, três mulheres de preto descem por uma alameda depois de depositar rosas vermelhas num túmulo. De um praticável, montado em outra alameda, elas são filmadas - pois se trata de uma filmagem - pelo diretor que mantém um olho no monitor e outro no cronômetro, enquanto se ouve de fundo (e alto) Elis Regina soltar a voz nos versos de O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, que virou hino da anistia (e da campanha pela volta dos exilados políticos). Há um clima de profunda emoção na coisa toda, e o próprio repórter do Estado viaja em suas lembranças, voltando a uma fase sombria da vida brasileira. Mas para as três mulheres é pior.

São a mulher, Thereza de Lourdes Fiel, e as duas filhas, Márcia e Aparecida, de Manoel Fiel Filho, o metalúrgico que, no início de 1976, foi preso na fábrica em que trabalhava - Metal Arte -, acusado de distribuir aos colegas o jornal A Voz Operária, um impresso clandestino do Partido Comunista Brasileiro. Levado para o porão do DOI-Codi, em São Paulo, foi torturado e, em poucas horas, estava morto. Ele foi o 39º morto - entre as vítimas oficialmente reconhecidas - pelo regime militar, mas seu caso foi classificado como suicídio. Foi o ''suicídio'' de Manoel Fiel Filho, 84 dias após outra morte em circunstâncias idênticas, a do jornalista Vladimir Herzog, na mesma carceragem, que levou o então presidente Ernesto Geisel a colocar um ponto final nos porões da ditadura, para coibir o que já virara uma anarquia militar - Geisel demitiu seu ministro do Exército, o general Sylvio Frota, e o comandante do 2º Exército, Ednardo D''Ávilla Mello. As duas demissões, sumárias e desonrosas, aceleraram o processo de distensão política ''lenta e gradual'' que o presidente iria colocar em prática.

A morte de Manoel Fiel Filho faz parte da história brasileira. ''Meu marido foi um mártir'', diz a viúva, até hoje inconformada com o tratamento de segunda classe que este verdadeiro herói brasileiro recebe na mídia. O caso de Vladimir Herzog repercutiu muito mais e, até hoje, a cada aniversário de morte do ex-diretor de jornalismo da TV Cultura, a família Fiel sente-se discriminada, porque, ao falar de Herzog, ninguém se lembra de Manoel Fiel Filho e, quando falam de seu sacrifício nos porões da ditadura, a história é sempre pretexto para que se volte a falar de Herzog. É um pouco essa injustiça que o jornalista e diretor Jorge Oliveira quer corrigir em seu documentário. Alagoano como Fiel Filho, não é tanto a sua origem, mas a indignação que movimenta Oliveira, que está colocando dinheiro do próprio bolso na realização do filme.

É outra coisa que o revolta. ''Inscrevi o filme na Petrobrás e não ganhei nada. Não houve interesse da comissão que avaliava os projetos em recuperar a história de um herói brasileiro, mas ''eles'' (a comissão) colocaram dinheiro da Petrobrás num filme como Meu Nome Não É Johnny. Depois de ver o Johnny quase quis virar traficante. Muito instrutivo'', ele provoca. Jornalista e marqueteiro político, sediado em Brasília, Oliveira é o primeiro a rir de seu currículo, porque ele fez a campanha de Renan Calheiros, por exemplo. Dado o rumo que tomou a história do político, não é uma grande recomendação, mas do marketing político ele saltou para o cinema, realizando documentários sobre Carlos Drummond de Andrade, entre outras personalidades da vida cultural do País, ou então outro, encomendado por Leonel Brizola, sobre o governo de Fernando Collor de Mello em Alagoas, que o ex-governador do Rio pretendia usar como trunfo no segundo turno, mas aí Luiz Inácio Lula da Silva foi para a segunda fase da eleição de 1989, houve aquele tal debate na Globo e... Você conhece a história.

''Meu filme não é sobre Manoel Fiel Filho. Uso o caso dele, que me parece exemplar, para falar de um quadro muito mais amplo - o envolvimento da CIA, isto é, dos norte-americanos, na repressão política montada no Cone Sul, nos anos 70'', explica o diretor. É, de novo, a história de Operação Condor e ele gostou do documentário de Roberto Mader. Seu filme vai ser diferente - um misto de documentário e realidade reconstituída, aquilo que se chama de ''docudrama''. O título veio de uma frase do brasilianista Jordan Young, entrevistado por Oliveira em Washington. Oliveira perguntou a Young o que diria a Manoel Fiel Filho, sobre o envolvimento do seu governo na máquina de tortura e morte montada na América do Sul, há mais de 30 anos. A resposta dele virou título do filme de Jorge Oliveira. Sorry, Mr. Fiel. Perdão, Mr. Fiel.

Para a mulher e as filhas do ex-metalúrgico Fiel, não é fácil debruçar-se sobre uma fase tão dolorosa da vida de todas. ''Somos espiritualistas kardecistas e sabemos que só os ossos de meu pai estão aqui neste cemitério'', diz Márcia, que tinha 16 anos, na época. Para ela, Manoel está hoje em outra esfera da vida espiritual, mas o uso que o diretor faz de O Bêbado e a Equilibrista, ajustando o final de seu filme - parte filmado em Brasília, parte no Tatuapé - à duração da música, amolece qualquer coração. ''Já choramos todas as nossas lágrimas'', Aparecida acrescenta. ''Mas a emoção ainda é muito forte.'' Aparecida tinha 19 anos e já estava casada - grávida - na época. No cemitério da Quarta Parada, o diretor usa o cronômetro para marcar o tempo da música, sobre as imagens de mãe e filha que depositam as rosas no túmulo de Manoel Fiel Filho. A derradeira imagem do filme será justamente a das rosas vermelhas, pousadas sobre a lápide.

A música tem quase 4 minutos - 3min40 - e os dois minutos iniciais foram gravados no Pólo de Cinema de Sobradinho, próximo a Brasília. Foi lá que Oliveira reconstituiu a cela do DOI-Codi em que o corpo de Manoel, interpretado pelo ator Roberto de Martin, é encontrado no chão, repleto de hematomas e enforcado com a própria meia de náilon azul. O filme é em preto-e-branco, com alguns detalhes coloridos, como a rosa vermelha da última cena. No estúdio em Brasília, o macacão de Manoel também tem cor - azul -, mas o restante da cena foi feito em preto-e-branco, o que permite ao diretor fazer a fusão de uma tarja na cela com o preto dos vestidos das três mulheres no cemitério. ''É um filme tenso, uma luz crua'', define o diretor. A cena de tortura foi a mais difícil. ''Ficou um clima pesado'', diz o diretor, que gravou - com equipamento digital - durante duas semanas. ''Fiquei mal'', acrescentou o ator De Martin.

Embora a última cena tenha sido feita no domingo passado, Oliveira ainda colhe depoimentos essenciais para o quadro amplo que pretende traçar. Na segunda-feiora, ele entrevistou, em São Paulo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ainda aguarda o sinal verde para entrevistar, em Brasília, o presidente Lula. Oliveira anuncia que quer cobrar do presidente seus recentes elogios a governos militares. ''Manoel era metalúrgico como ele e tem gente que agora acusa o presidente de traição aos companheiros que caíram.'' Oliveira espera poder estrear seu filme no Festival de Brasília, em novembro. Antes disso, é provável que Perdão, Mr. Fiel ganhe mais algum destaque na mídia por um detalhe que não é irrelevante. A injustiça em relação a Manoel Fiel Filho é tão grande que, até quando a União se dispôs a indenizar familiares e vítimas do regime militar, a viúva do operário recebeu uma das menores indenizações que foram pagas pelo Estado. Thereza de Lourdes Fiel está recorrendo da decisão. O dinheiro não vai remediar o sofrimento de 32 anos de dona Thereza, mas é uma questão de Justiça e ela vai brigar pelo que lhe é de direito. O mais incrível foi o que o diretor descobriu ao investigar o assunto. Manoel Fiel Filho foi preso por engano. A polícia política procurava um agente cujo codinome era Fiori. Na confusão dos nomes, Manoel foi preso - e morto. Mas seu sacrifício não foi em vão. A distensão de Geisel deve muito à dor da família Fiel.

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